segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Táxis, plataformas e a tacanhês cultural

Durante o dia fui-me indignando com o protesto dos taxistas. Seria bonito que todos trabalhassem em harmonia, sem olhar de soslaio para o vizinho, mas isto não é possível, não enquanto a tacanhês cultural não mudar. Os taxistas querem justiça. Não, os taxistas querem que as novas plataformas de transporte se eclipsem. Ponto final, acabou-se, dêem lá as voltas que derem, tudo espremidinho resume-se a isto. 
Não quero francamente tomar um pelo todo (há grandes e boas excepções), mas a cultura taxista no panorama do nosso país não é bonita, é rica em comentários de profundo mau gosto, com comportamentos longe de serem exemplares, das meninas virgens, aos carros carregados de minis, hoje deu para tudo. E mais do que as diferenças legais e fiscais entre empresas, foco-me nos princípios culturais e comportamentais implícitos.
Guardo do meu tempo de faculdade a memória de uma colega que recebia bolsa de estudo, tinha dificuldades económicas e essa bolsa era o garante da continuidade do seu percurso académico, até ao momento em que vamos a casa dela fazer um trabalho de grupo e constatamos que na moradia dela cabiam dois apartamentos dos meus pais. O pai era taxista e contornava a fiscalidade o mais possível, ele e os seus colegas utilizavam o mesmo modus operandi no que às finanças diz respeito e faziam gáudio disso. 
Esta cultura do contornar a lei era-lhes confortável, não havia concorrência e agora é do caraças. Por isso, mais do paz entre todos quero justiça, ou melhor, quero uma mudança de comportamento. Quero entrar num táxi que não cheire a tabaco, que o motorista respeite o meu silêncio, feche os botões da camisa, tire o palito da boca e não se saia com tiradas do género "então essa carinha laroca quer ir para aonde?!" (sim, já levei com isto!). Quero que possa haver oferta de produtos sem ter medo que se partam dentinhos só por existirem. 
Num Portugal cujo turismo ascende grandemente (graças a Deus!), preocupa-me que a primeira imagem que se tem do nosso país à chegada ao aeroporto seja a de uma pessoa que empurra ferozmente as nossas malas para dentro da bagageira, que nos grita para despacharmos e arranca ainda antes de eu ter posto o cito de segurança (e sim, também já me aconteceu!). A resistência à mudança é tremenda e toda esta guerra está longe de ter um fim à vista, porque a base do problema é cultural e está tão entranhada na pele que não lhe almejo alterações.

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