segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Que horror mãe, tu és assistente social!"

Quando no sábado à noite estávamos todos na sala de estar, os miúdos a brincar e nós na cavaqueira, demos conta que passava na televisão uma reportagem da TVI "Love you mum". A jornalista Ana Leal, brilhante por sinal, retratava histórias do serviço social inglês pautado por muito pouco rigor e seriedade nos critérios e posturas adoptados no que à retirada de crianças a mães portuguesas diz respeito. Considerando que as histórias ali retratadas são fidedignas no aspecto de que só ouvimos uma versão e percebendo que cada vez se ouvem cada vez mais histórias iguais aquelas por parte de colegas que emigraram para Inglaterra e se deparam com autênticos negócios de adopção, dei comigo a enterrar-me lentamente no sofá completamente aterrada. Naquele momento só sentia vergonha da profissão que tenho e da classe que defendo.
Tal como a Marta (Dolce far Niente) fala no seu blog, também eu integrei durante tantos anos quantos os que a legislação permite, uma Comissão de Protecção de Menores, cheguei a presidi-la por tantos outros. Foi duro, desgastante ao ponto de ser psicossomático. Eu e os meus colegas garantíamos que, sob qualquer circunstância, salvaguardávamos a criança e o seu ambiente natural vida. Debatiamo-nos e, dos milhentos casos que me passaram pelas mãos, conto em poucas dezenas as crianças que institucionalizei, que retirei completamente do seu seio familiar. Com inibição de convívio com familiares, tive um! Fui inúmeras vezes a tribunal defender o superior interesse das crianças. Num casos consegui, noutros saí absolutamente frustrada. E, com tanto orgulho na nobreza de profissão que escolhi e, na certeza de que tudo fiz para proteger quem o Estado me confiava, naquele momento senti uma vergonha enorme quando a minha filha de sete anos olha para mim e diz "que horror mãe, tu és assistente social!" E nem acreditei quando me tive de justificar e explicar o inexplicável!
Enquanto mãe, a maior das solidariedades por todas as mães que vivem histórias de horror e se vêem privadas da maior e melhor profissão do mundo: ser mãe!

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