quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Just be real

Temo ficar repetitiva, mas as vidinhas perfeitas incomodam-me pela irrealidade que representam. Por razões profissionais lido muito com o lado feio da vida que, claramente não serve de exemplo. Chegar a casa, passear-me pelos blogues à procura de alguma empatia e deparar-me com vidas tão certinhas deixa-me com a pulga atrás da orelha. Ele é os brunchs em sítios com nomes difíceis de pronunciar, os pequenos almoços meticulosos (que eu só conseguiria se levantasse o dito da cama lá para as cinco da manhã), as crianças sempre vestidinhas com folhos (mesmo em dias que só se vai marranzar no sofá), sofás limpos e imaculados (ainda que os putos estejam em cima deles com os sapatos calçados), os cães não se babam nem deitam pêlos (são só fonte de amor, coisas mais fofas), elas parem criancinhas e estão sempre em bom (já saem da maternidade com abdominais definidos), viajam muito com férias de três meses e as praias são passereles de brocados e florinhas, as refeições são finamente cuidadas e ninguém janta uma taça de cereais.
Por aqui vigora o despudor, a descontração e, vá-se a ver, a normalidade. Sim, grande parte da minha casa é branca: as paredes, os sofás, as colchas da cama, os lençóis,... e sim moro no campo e tenho grandes pancas com as limpezas e passo o tempo todo a disciplinar-me para não andar aos gritos "não me sujem as coisas!". Por aqui vive-se a casa, procrastina-se muito mas também se mete a mão na massa à bruta. Dizemos asneiras, rimos muito alto, ralhamos, choramos com ranho e tudo. Lambuzamo-nos, beijamo-nos, damos no gin com alma e passamos serões ao luar enroladinhos em mantas. Gozamos com o meu rabo à-la-kardashian, brincamos com tudo e mais um par de botas, vivemos alapados uns aos outros, abraçamo-nos e beijamo-nos muito mais do que o meu filho adolescente desejaria. Somos queridos, fofinhos e uns doidos de primeira. Tanto se veste folhos para a rua como o fato de treino manchado de lixívia para casa. Fazemos coreografias, cantamos e abadalhocamos as músicas que a Madalena ouve. Somos francamente alegres, optimistas, mas em dias de lado lunar saiam de cima. Por aqui não se é nem melhor nem pior que os outros...é-se real.


1 comentário:

  1. Há quem ponha nos blogues, aquilo que na realidade gostaria de ser, mas isso não os impede de o ser, nem que seja os cinco minutos ou menos que demora a preparar o cenário e a foto. Depois a seguir, caiem na cama com a louça toda suja do pequeno almoço por lavar, atiram as mantas enroladas para cima do sofá onde antes esteve a almofada de folhos ou desatam a aspirar os pelos do cão e a lavar a baba que entretanto ficaram amontoadas tipo pasta, detrás da lente da máquina. No fundo, no fundo, esforçam-se para parecer bem e se calhar alguns até lhes sabe bem os brunchs que eu nunca conseguirei ter... gostei das palavras e embora sejam assim, há mesmo quem se esforce por mostrar um lado mais bonito... e quem sabe, se calhar há quem só tenha esse lado, os outros (eu incluída) é que são uns "tristes" aka reais.

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