domingo, 4 de outubro de 2015

Agora sim, estou preparada para falar


Quem teve uma infância alegre, uma adolescência porreira e uma vida adulta feliz e confortável sem grandes problemas ou sobressaltos, não vive preparado para que a vida lhe preste rasteiras. Acredito que às pessoas menos afortunados também, mas de alguma forma a vida dá-lhes um traquejo duro e prepara-as para o embate. Eu não estava preparada. Aliás, acho que nunca me deixei levar pelos tropeços porque levo as coisas com tal leveza que a vida acaba por retribuir. Mas desta vez não.

Fomos de férias na segunda quinzena de Agosto para a casa dos meus pais no Algarve. Foi tão bom, mas tão bom. Tinha a família, os amigos, os miúdos todos à nossa volta e tão felizes. No entanto, comecei a reparar que alguma coisa estranha se passava comigo: eu sofro de privação de sono e sou acompanhada por especialista, mas como é que depois de um dia inteiro de caminhadas, mergulhos, jogatanas de ténis, noitadas das boas, e medicação para dormir,... não acontecia nada, em suma, eu não dormia. As noites eram passadas na varanda do quarto acompanhada pelo João que entretanto também não dormia de preocupação.
 Era sabido de todos que eu precisava de férias, o stress dos últimos tempos do trabalho havia sido bastante grande, mas as férias estavam a correr tão bem que eu nem sequer pensava em trabalho. Mas o inexplicável continuava a acontecer: eu não dormia!
Chegámos a casa um dia antes de eu começar a trabalhar: era preciso ir ao cabeleireiro, à manicure, à pedicure, comprar os materiais escolares, lá, lá, lá. E eu estava bem, ou pelo menos parecia.
Chegada ao trabalho senti o carinho habitual "que escândalo de bronzeado é esse", "esse loiro fica-te a matar", "fónix, então não é que ela vem mais magra", vá lá, digam se havia motivos para ir abaixo?! Claramente, não.
Até que ao segundo dia de trabalho, na hora de sair lembro-me de estar a enviar um último email, de olhar para o relógio e não conseguir perceber que horas eram, olhei para o computador e as letras não faziam sentido e ... apaguei. Eu acho que desmaiei, mas parece que não, segundo dizem dizia coisas sem sentido, babava-me, chorava e deambolava. Acordei dois dias depois numa maca no corredor do hospital, cheia de tubos, com uma dor de cabeça terrível. Eu queria falar, queria que me ouvissem mas parecia que ninguém entendia o que eu dizia, só ouvi a voz do João a dizer que agora estava bem porque estava no médico. O diagnóstico fora exaustão. O cérebro tinha atingido o seu limite e, segundo revelavam os exames, algumas células cerebrais já tinham ido, o curto circuito deixava-as irreparáveis.

Os primeiros tempos foram horríveis, sem reconhecer o espaço e o tempo. Sentir que se me deixassem no meio da rua ficava ali. Passava dias inteiros a chorar. Eu queria a minha vida de volta e estava tão dopada que nada me fazia reagir. Eu precisava de dormir o máximo possível, e foi nesse sentido que os médicos actuaram. Perdi o controle da minha vida, da minha privacidade, do meu pudor (quando nem controle dos esfincteres tinha). Tanta coisa, tanto pormenor que vos poupo.

Quando fui para casa cheguei a acordar a meio da noite e a ver os meus filhos e o meu marido agarrados a chorar. Certa noite dou com o João de joelhos a acender velas, a rezar e as lágrimas a caírem-lhe para o chão.

Hoje, já comecei a reduzir a medicação. Já me sinto mais gente. Já comecei a conduzir pequenos percursos (nos entretantos havia desaprendido por completo de conduzir). Quero começar a trabalhar o mais depressa possível e isso "obriga-me" a espevitar e a retomar as rotinas diárias.

Obrigada a quem me mandou mensagens a acusar o desaparecimento. É bom saber que sou lida e acarinhada. e agora prometo não desaparecer.

Beijinhos grandes,
Sónia.

5 comentários:

  1. Sónia, minha querida.
    notei a sua ausência. estou tão comovida pelo seu relato.
    acredito que tudo irá ao lugar certo, no tempo certo.
    tem a sua volta todo o amor incondicional da sua familia. irá recuperar .
    muitas forças. um beijinho carregado de ondas positivas.
    a Sónia é uma força da natureza,
    Lili.

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    1. Ai Sónia, que até me vieram as lágrimas aos olhos! Espero que já esteja a recuperar bem, junto de quem mais ama, pois é nesses que tem de se apoiar. Tudo de bom para si! Beijinhos

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  2. Bom Dia Sónia

    Oh Meu Deus! Nem sei o que lhe dizer, estou estupefacta. Espero que corra tudo do melhor e que a sua recuperação seja rápida e boa. passou por momentos muito delicados, mas acredito que há uma grande força em si que a vai ajudar a "renascer das cinzas". Pois já mostrou ser uma mulher de M bem GRANDE e não vai ser uns "neurónios a menos" que a vão deitar a baixo.. ( a brincar, ou pelo menos a tentar relativizar a situação... desculpe se a ofendi...).
    Força, força, força!!!!!
    Um grande abraço
    Patricia S.

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  3. Nunca comentei mas há muito que já tinha dado pela falta de actualizações neste blog querido :) espero que a recuperação corra da melhor forma possível e que não passe tudo de um susto.
    Beijinhos e as melhoras de uma leitora que sentiu a falta deste blog

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  4. Boa tarde

    Já sentia a sua falta mas nada comparado com falta que faz à sua família. Melhor rápido.

    Rosário

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