terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sou gaja de compras

Não venham cá com esquisitices que não compram aqui ou ali porque esta ou aquela loja não paga impostos. Sabem a quantos restaurantes dos bons já fui, daqueles onde deixamos metade de um ordenado mínimo e na hora de registar a factura no portal das finanças... colapsou-se do universo?! Pois bem, eu compro praticamente em qualquer sítio, basta que haja um critério: que eu goste! Então não é que ontem para fugir ao dilúvio enfiei-me numa mega loja chinesa e sai de lá com roupitas de meter a Zara a chorar. 
E olhem que havia por lá figuras públicas.... Anda tudo ao mesmo!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

D. Lucinda

O meu querido, fofo e lindo jipe traz uma senhora incorporada que está constantemente a querer meter conversa connosco ela é "boa viagem", "início de funções", "local desejado?", "vídeo ou álbum?"... mas a minha preferida é quando estamos todos a conversar e ela do nada diz "como?!".
Tanta intimidade já faz dela parte da família pelo que a baptizámos de D. Lucinda.
Isto é tudo muito bonito, mas hoje já azedei com a D. Lucinda, ela queria conversa e eu dizia "ó Lucinda cala-te lá que eu quero ouvir a rádio comercial!" ao que a Lucinda me diz "destino imperceptível" e eu grito "comercial...rádio comercial!". Do banco de trás, cansado de ouvir o mulherio a discutir, grita o meu filho "desactivar"... e não é que a Lucinda lhe responde "sistema desactivado". A cabra foi o caminho todo calada que nem um rato. Será que nem no carro consigo exercer autoridade!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Madalena Report #4

Caiu na escola.Tem uma contusão no pé, feia como tudo. Fica o resto da semana em casa a brufen, gelo e pé levantado. Não pode andar, o que significa que Sua Alteza é transportada ao colo pelos serviçais que povoam esta casa. Portanto ontem tivemos um final do dia animado com a jovem a relatar e a pedir justificações de tudo o que sucedida nas urgências hospitalares. Ousou fazer uma birra à saída do hospital porque queria um bolo, digo ousou porque levou um grito como há muito não ouvia, com o pormenor de eu estar descabelada por ter corrido o hospital com ela ao colo e com umas olheiras do tamanho de uma cratera de um meteoro.
Em suma, goza de saúde, o disney on demand foi novamente activado e estamos constantemente a ser chamados de cada vez que ela quer ir a algum lado. Há lá cenário mais idílico?!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aceito mecenas para arnica

O meu filho homem nunca me apareceu com uma nódoa negra em casa, e olhem que até chegou a jogar futebol (desporto de macho) apesar de pedir sempre ao treinador para ficar no banco. Mas pronto lá se mexia e levava encontrões, tinha brincadeiras de gajo na escola, agora nódoas negras e arranhões, nada.
A minha filha mulher pratica hip hop (o ballet era demasiado lento para ela) e equitação, tem brincadeiras de gaja e esbardalha-se em todo o lado. Só na última actualização, contabilizámos um joelho esfolado (levou um encontrão na caixa de areia da escola), uma nódoa negra gigante (cada vez que vai a casa dos avós acha um piadão eles viverem num prédio e de cada vez que visita uma vizinha cai nas escadas) e mais três nódoas de nível III (nós já lhes atribuímos níveis). 
De modos que eu venho apelar para mecenas para sticks de arnica. Somos fixes, bem dispostaços, e sobretudo conseguimos provar que as mazelas não foram perpetradas por nós. Muito obrigadíssima!

Esta tipa tem uma sorte nos pais que tem...

Na manhã de sábado, lá vamos nós do Oeste para Campo de Ourique. Chovia a potes, Lisboa mais parecia uma prova de circuitos a contornarmos caixotes do lixo e ramos de árvores. Na rádio dizia-se para a população se resguardar em casa, avisos amarelos, laranjas e às bolinhas vermelhas. Mas nós não, saímos à rua e enfrentámos o dilúvio para irmos com a nossa enferma à dita consulta de oftalmologia. Durante o caminho todo repetiu constantemente que não vi nada, é natural, nem ela nem nós, chovia a cântaros.
Esteve no gabinete mais de uma hora, a médica fez-lhe todos os exames possíveis e imaginários e a gaja (entenda-se, minha filha) dizia à médica: "Faz-me mais um teste que eu quero usar óculos!" Foi um filme cómico do caraças no qual eu tinha o pensamento constante no "vou ter mesmo de pagar a consulta desta tipa?!"Depois de tudo, a sapiente médica diz "Madalena, tenho de te dar os parabéns: tu vês muito bem! Se toda a gente visse como tudo, seriamos muito felizes!" e a outra deu de chorar "eu dou sempre prémios a quem passou nos testes todos..." e o dilúvio ocular ganhava terreno "sabes que na escola os outros meninos costumam ser muito cruéis para quem usa óculos" e a carpideira respondia "mas eu cá não me importo que me chamem nomes, eu só quero é usar óculos",... 
Sai do gabinete ladeada de kleenex e a despedir-se de uns Ray Ban by Hello Kitty que tinha avistado. Depois de toda aquela espectacularidade, a funcionária diz-lhe "ouvi falar de um prémio por veres bem?! Gostas de Barbies, Ken ou Barriguitas?" enxuga as lágrimas, engole a ranhoca, ergue a postura e negoceia "não há por aí Lego Friends, não?!"

Com outros pais, esta jovem levava um enxerto de porrada em pleno consultório médico por estar a inventar merdas só para usar óculos. Como lhe saiu na rifa estes parvos, saímos a rir que nem parvos e a gozar o prato.

Pronto, eu também lucrei um bocadinho com isto porque era imperativo libertar toda esta carga emocional, e naturalmente ir a Campo de Ourique e não ir à Companhia do Campo não é dia, rigth?!

domingo, 18 de outubro de 2015

Deus lá vai sabendo o que faz

Quando a Madalena nasceu, passado um/dois anos andámos a ponderar seriamente em ter um terceiro filho. Fomos a consultas pré-natais, faziamos exames e sobretudo treinávamos que nem Nélson Évora. Mas a coisa acabou por não se dar e nós, muito honestamente, também não estávamos muito stressados e rapidamente perdemos o interesse.
Ontem estivemos com um casal amigo que tem três filhos, sendo que o do meio tem o feitio igualzinho ao da nossa pequena Mada, e percebemos o quão Deus Nosso Senhor foi generoso connosco. Obrigada Big Boss, és grande! Tás cá dentro pra vida! 
Só vos digo, o cenário a que assistimos era devastador, sendo que já vi furacões mais brandos que aquele trio. Que Deus dê a estes pais muita saudinha e sanidade mental, que ao que me pareceu já está para os lados de Bagdad. 

É uma pocilga, é uma doninha, não é a Ginja!

Esta cara diz assim:
"Eu sei que fiz merda ... eu sei que andei atrás de ratos e estou toda suja ... eu sei que andei a noite toda à chuva só porque sim...eu também sei que cheiro muuuuuito mal ... mas ignorem tudo isso e deixem-me fazer uma sesta dentro de casa. Pleeeeease!"

Este poderoso cão de guarda (sintam claramente o meu tom irónico) quando a mandamos para a cama corre para a sala e fica enroladinha num tapete. Maricas e mal cheirosa, mas depois faz-me estes olhinhos e eu não resisto a esta pequena besta que amo de paixão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Madalena Report #3

Vou buscá-la à escola. Atira-se para dentro do carro e diz:
"- Estou de rastos. Vou chegar a casa, tomar um bom banho, levas-me o jantar numa bandeja e pronto. Não me peçam nada hoje que eu estou demais!"

Está provado: criei uma diva!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Quero-me de volta. Quero-nos de volta.

Ao início foi tudo muito confuso. Havia decisões para tomar. Medidas a adoptar. Miúdos para levar para a escola. Lanches. Horários. Mudanças de horários. Medicação para administrar. Procurar especialistas (e tinham de ser os melhores). Marcar consultas. Gerir horários e tempos. Ensaios do mais velho. Actividades da mais  nova... Esta foi a realidade do meu marido enquanto eu apagava do mundo. Difícil e dura. E se estava assustado!
Havia tanta coisa para tratar que não havia tempo para pensar. Deixei que o João cuidasse de mim,  como deixo sempre, deixei-me levar e francamente se há coisa em que ele é bom é no cuidado e no mimo. Mas o tempo vai passando e a paciência vai cedendo e eu francamente sinto-me um fardo. Ele quer-me ver melhor, diz que eu tenho de ir com calma, mas depois nada disso se reflecte no seu comportamento irritável. Ele quer que eu volte ao que era, mas eu também (numa versão melhorada, se possível)
Agora é ele que precisa de ajuda, embora não o admita. Não é fácil tolerar tanto disparate da mulher com que se casou. Não era assim que devia ser suposto. E eu até devia ter previsto que um dia me iria dar a macaca.
Merda, quero-me de volta, quero-nos de volta, quero mudar tudo em tão pouco tempo e não consigo,... E estou perdida, tão duramente perdida!

Há lá galocha mais linda!

Assim que muda a estação eu, tal como a maioria do mulherio, começa a pensar em roupa, acessórios, sapatos, botas e que demais.
Cá em casa o recadinho já foi dado. Vamos ver se pega. Digam lá se não são de se comer. E há igualzinho para a Mada...vamos ficar tão lindas!!!

Madalena Report #2

"- Bem hoje na escola ninguém comeu o segundo prato ao almoço!"

"-Então porquê?"

"- Porque os grandes estavam a dizer que tinham visto latas de comida de cão a entrar na cozinha, e que era isso que íamos comer... Já viste o nojo!!! Blhac."

Acreditem que argumentei com fortes convicções porque a comida na escola dela é muito boa, mas quem sou eu perante "os grandes da escola"...

Criancinhas tão fofas, lindas e inocentes!

Madalena: "Mãe, quando nos despimos estamos a fazer um strip?!"

Eu: "... um quê?! Um strip? Onde é que ouviste issso?!"

Madalena: "O Bernardo diz que quando nos despimos e vamos para a cama dar beijos é um strip!"

Eu: "... ele deve ter confundido alguma coisa que ouviu. Despimo-nos para tomar banho e vestir o pijaminha e a família dá beijinhos de boa noite. Como vês, ele deve ter percebido alguma coisa mal."

Madalena (perdida de sono e a revirar os olhos): "Não sei se é bem assim, mas se calhar ele ouvi mesmo mal!"

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Toda uma nova forma de comunicar

Quando o João era pequeno e não queríamos que ele percebesse o que dizíamos, falávamos em inglês. Quando o inglês já não era suficiente, recorríamos à língua gestual (o pai tem curso) só que depois o fulano também sabia alguma coisa e desistimos.
Com a Madalena nada disto funciona porque ela se não percebe não se cala enquanto não lhe dizemos, vai daí aderimos aos sms.
Curioso é ter o meu filho no quarto dele a enviar-me mensagens, que estou na cozinha, porque não quer que a irmã saiba de dada assunto...
Quem manda ser desbocada!

Confidências muito pouco interessantes

Em tempos comprei umas sabrinas na Primark por 1€. São giras que dói e têm durado à custa de cola UHU. Ficam logo como novas. 
Cada vez que o verão acaba fico triste porque as minhas sabrinas UHU serão arrumadas. Até pro ano queridas! Eu não desisto de vocês!

Volto a reforçar: quem pensa em ter filhos, não percam este blogue de vista. Olhem que vos pode muito bem sair assim uma na rifa!

Dizia o Joãozinho que a Kloé Kardashian tinha gasto uma fortuna para remodelar o corpo. Enquanto ele falava a Madalena pedia-lhe que lhe mostrasse uma fotografia da dita senhora.
Depois de uma observação clínica, a jovem conclui:
" - Bem mãe ela está mesmo parecida contigo. Foste ao mesmo médico que ela?!"

" - Fui querida, o médico só não me conseguiu foi esticar e pôr-me com 1,90m, caso contrário somos gémeas."

" - Poooooois são! O cabelo, os olhos, a boca,... o rabo grande!"

Uma mãe não merece!


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Há coisas tão lindas!!

Comprámos um carro com um sistema informático XPTO e que obriga à compra de um iphone. Ora eu, que tenho um smartphone a cair aos bocados derivado das inúmeras quedas sofridas, estou aqui tão contentinha! O meu marido nem por isso... há características masculinas que não se entendem!

Madalena Report

Na Escola:
  • Já está na fila da frente, segundo se consta (más línguas) a miúda tende para o falatório e gosta de dominar todos os assuntos dentro da sala;
  • Frustra com facilidade perante algo que desconhece (JU-RA) porque quer fazer tudo muito bem feitinho;
  • Garante que já sabe ler e não lhe venham dizer o contrário;
  • Por ela, deixávamos-la no estacionamento da escola e ela fazia-se à vida, incluindo atravessar a estrada sozinha porque as amigas ou alguém conhecido acabou de ser avistado e ela logo pela manhã tem muito que pôr em dia...uma canseira;
  • Todos os dias se esquece de alguma coisa: casaco, gancho, lenço, lancheira;
  • Dos dois lanches que leva (um para a manhã, outro para a tarde) acha muito interessante partilhar com os colegas e de manhã já marchou tudo. Resultado, à tarde vai pedir leite escolar à professora (ao menos desenrasca-se);
  • Quanto aos materiais também é muito generosa na sua distribuição pelos colegas;
  • De repente diz que vê mal. Não sei se o faz porque acha muita piada aos óculos do irmão ou se está mesmo pitosga. Dependendo da resposta do oftalmologista, lá pensarei no que fazer à cachopa, se a viro do avesso por ver bem ou me penitencio por ignorar a pobre alma;
  • Tem um colega da turma chamado Apolo, mas ela insiste que a criança se chama Marco Polo.
No ATL:
  • Já disse à monitora que tinha sido roubada na maternidade, porque viu no "Mar Salgado" uns bebés que foram trocados e ela acha que a história de vida dela também começou assim;
Na Catequese:
  • Uma palavra: ME-DO! Pela falta de filtro e porque desde o ano passado que diz que a história do Menino Jesus está mal contada: o José afinal não é pai coisa nenhuma e a Maria se não teve nenhuma semente plantada na barriga (pelo José) é porque... a criança foi roubada na maternidade. Lá está!

E assim se passam duas semanas de aulas. Tenho para mim que vai ser uma animação... ou não!

Gosto de gente bem educada

Gente que deixa um sorriso e torna aquele momento mais leve. Gente que abraça forte e diz "bem vinda" de forma genuína. Gosto de gente que se preocupa, que está atenta aos pormenores. Gosto de gente assim, e gostava de poder privar diariamente com mais gente assim. Já eu sinto-me grata por ser exactamente assim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

. . .

Madalena: "A professora esteve a explicar que há muito tempo... no tempo dos reis e das rainhas... quando vocês eram pequeninos..." 

A seguir a uma introdução destas já ninguém consegue ouvir mais nada, certo?!

Algo que nunca ouviram sobre as eleições

Só passados alguns dias percebo que votei num partido que não queria ter votado.
Opá, os símbolos são todos iguais. Uma pessoa confunde-se. E também já não vai para nova. Triste é ter constatado dias depois das eleições ao olhar muito seriamente para um outdoor.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sou tão ingénua que só me apetece sovar-me até ficar toda negra!

Eu pertenço aquele grupo raro de seres estúpidos que acha que todas as pessoas mudam, ou melhor, amadurecem. Amadurecem e tornam-se pessoas melhores, mais calmas, tolerantes com os outros, assumem os seus erros, elevam os interesses de quem precisa em detrimento das suas futilidades,... 
E depois, depois percebo que o mundo gira, as guerras lá para as terras onde já só restam destroços continuam, o buraco do ozono  já não é do tamanho do meu punho, ... e as pessoas más continuam verdes na árvore da vida. Porquê? ... porque a essência nunca se perde. E eu, vou enfiar mais uns comprimidos pro bucho e ver se esta ingenuidade indignante me passa! É que quero muito trabalhar e estas coisas ainda me desorientam!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

De manhã levantou-se e lembrou-se que tinha filhos... e depois deu nisto!

Trabalhar numa CPCJ é para quem os tem no sítio. Digo-o sem falsa modéstia. Todos nós (técnicos) em algum momento das nossas vidas já vislumbramos um cenário como o que se passou hoje em Lagos. Isto porque as condições em que trabalhamos são precárias, inseguras e inóspitas. Todos nós já vaticinámos levar com um balázio ou uma arrojada à entrada ou saída das instalações, ou a cada visita domiciliária que fazemos. Só eu já tive três furos nos pneus, recados no vidro do carro e uma criatura à porta da escola da meu filho. Os meus colegas também já tiveram a sua dose.
De facto nós somos heróis comuns, sem capa nem dom especial, porque é preciso ser-se herói para trabalhar lá de borla (sempre em representação das instituições onde trabalhamos), sermos apontados na rua como bestas, termos jornalistas a não entender muito bem o que fazemos o dia todo quando a coisa corre para o torto, ...
Aos colegas de Lagos, que viram a vidinha a passar-se à frente dos olhos, vai daqui um sincero abraço de solidariedade. Porque amanhã terão de se levantar da cama e esquecer tudo o que aconteceu hoje, é que a falta de pessoal não permite grande traumas.

domingo, 4 de outubro de 2015

Agora sim, estou preparada para falar


Quem teve uma infância alegre, uma adolescência porreira e uma vida adulta feliz e confortável sem grandes problemas ou sobressaltos, não vive preparado para que a vida lhe preste rasteiras. Acredito que às pessoas menos afortunados também, mas de alguma forma a vida dá-lhes um traquejo duro e prepara-as para o embate. Eu não estava preparada. Aliás, acho que nunca me deixei levar pelos tropeços porque levo as coisas com tal leveza que a vida acaba por retribuir. Mas desta vez não.

Fomos de férias na segunda quinzena de Agosto para a casa dos meus pais no Algarve. Foi tão bom, mas tão bom. Tinha a família, os amigos, os miúdos todos à nossa volta e tão felizes. No entanto, comecei a reparar que alguma coisa estranha se passava comigo: eu sofro de privação de sono e sou acompanhada por especialista, mas como é que depois de um dia inteiro de caminhadas, mergulhos, jogatanas de ténis, noitadas das boas, e medicação para dormir,... não acontecia nada, em suma, eu não dormia. As noites eram passadas na varanda do quarto acompanhada pelo João que entretanto também não dormia de preocupação.
 Era sabido de todos que eu precisava de férias, o stress dos últimos tempos do trabalho havia sido bastante grande, mas as férias estavam a correr tão bem que eu nem sequer pensava em trabalho. Mas o inexplicável continuava a acontecer: eu não dormia!
Chegámos a casa um dia antes de eu começar a trabalhar: era preciso ir ao cabeleireiro, à manicure, à pedicure, comprar os materiais escolares, lá, lá, lá. E eu estava bem, ou pelo menos parecia.
Chegada ao trabalho senti o carinho habitual "que escândalo de bronzeado é esse", "esse loiro fica-te a matar", "fónix, então não é que ela vem mais magra", vá lá, digam se havia motivos para ir abaixo?! Claramente, não.
Até que ao segundo dia de trabalho, na hora de sair lembro-me de estar a enviar um último email, de olhar para o relógio e não conseguir perceber que horas eram, olhei para o computador e as letras não faziam sentido e ... apaguei. Eu acho que desmaiei, mas parece que não, segundo dizem dizia coisas sem sentido, babava-me, chorava e deambolava. Acordei dois dias depois numa maca no corredor do hospital, cheia de tubos, com uma dor de cabeça terrível. Eu queria falar, queria que me ouvissem mas parecia que ninguém entendia o que eu dizia, só ouvi a voz do João a dizer que agora estava bem porque estava no médico. O diagnóstico fora exaustão. O cérebro tinha atingido o seu limite e, segundo revelavam os exames, algumas células cerebrais já tinham ido, o curto circuito deixava-as irreparáveis.

Os primeiros tempos foram horríveis, sem reconhecer o espaço e o tempo. Sentir que se me deixassem no meio da rua ficava ali. Passava dias inteiros a chorar. Eu queria a minha vida de volta e estava tão dopada que nada me fazia reagir. Eu precisava de dormir o máximo possível, e foi nesse sentido que os médicos actuaram. Perdi o controle da minha vida, da minha privacidade, do meu pudor (quando nem controle dos esfincteres tinha). Tanta coisa, tanto pormenor que vos poupo.

Quando fui para casa cheguei a acordar a meio da noite e a ver os meus filhos e o meu marido agarrados a chorar. Certa noite dou com o João de joelhos a acender velas, a rezar e as lágrimas a caírem-lhe para o chão.

Hoje, já comecei a reduzir a medicação. Já me sinto mais gente. Já comecei a conduzir pequenos percursos (nos entretantos havia desaprendido por completo de conduzir). Quero começar a trabalhar o mais depressa possível e isso "obriga-me" a espevitar e a retomar as rotinas diárias.

Obrigada a quem me mandou mensagens a acusar o desaparecimento. É bom saber que sou lida e acarinhada. e agora prometo não desaparecer.

Beijinhos grandes,
Sónia.